Diác. João Ensina
O Natal recorda-nos uma verdade essencial e profundamente humana: Deus vem ao nosso encontro. Ele não permanece distante nem observa a vida de cada pessoa a partir de longe; faz-Se próximo, caminha connosco, partilha as nossas fragilidades e acende luz onde parecia haver apenas escuridão. Na espiritualidade salesiana, esta proximidade é o coração de tudo. Aproximar-se, fazer-se presença e gerar alegria é a forma concreta de imitar o Deus que, em Belém, escolheu instalar-Se no meio de nós. Quando pensamos no nascimento de Jesus, percebemos que a alegria do Natal não é apenas emoção festiva, mas a certeza de que Deus continua a acreditar na humanidade.
É esta alegria profunda, transformadora, que encontramos também no início do Oratório de Valdocco. Quando D. Bosco começou a reunir alguns rapazes pobres nos arredores de Turim, não imaginava que aquele espaço simples se tornaria um ponto de partida para tantas vidas renovadas. O que D. Bosco oferecia não era apenas catequese ou recreio; era sobretudo um lar, uma família, um lugar onde cada jovem se sentia visto, escutado e valorizado. Valdocco era pobre em meios, mas riquíssimo em humanidade. Ali, muitos descobriram que eram importantes, que Deus os amava e que havia um futuro possível para eles. A alegria, para D. Bosco, não era superficial: era um caminho educativo, um sinal de que o coração estava aberto a Deus e aos irmãos. Ele repetia que “a santidade consiste em estar sempre alegres”, não porque ignorasse os problemas, mas porque acreditava que a alegria é fruto da fé e da esperança.
Hoje, cada obra salesiana – seja uma escola, uma paróquia, um centro juvenil ou um grupo de jovens – é chamada a ser um novo Valdocco. Já não vivemos na Turim do século XIX, mas continuamos a viver rodeados de jovens que procuram sentido, companhia, segurança e esperança. O “nosso Valdocco” não depende de paredes antigas: nasce onde houver alguém disposto a acolher, animar, educar e caminhar ao lado dos outros. Pode ser o pátio físico onde se joga, pode ser a sala de reunião de um grupo, pode ser o corredor da escola, a conversa num café ou até um espaço digital onde se cria proximidade verdadeira. O importante é que seja um lugar onde se respira família e onde a fé se torna simples, próxima e contagiosa.
A alegria salesiana continua, ainda hoje, a ser um dos maiores desafios e a mais bela missão. Não é um entusiasmo artificial, nem um disfarce para evitar dificuldades. É uma alegria que nasce da presença, da bondade e da esperança. Ser presença é estar com o outro, como Deus está connosco: com atenção, com escuta, com paciência. A bondade salesiana é aquela que se expressa em gestos simples, num sorriso, na certeza de fazer o bem sem esperar recompensa. A esperança é a convicção de que cada pessoa – jovem ou adulta – pode sempre recomeçar, crescer e encontrar a sua vocação. No Oratório, esta alegria transformadora faz-se visível quando um jovem descobre os seus talentos, quando alguém encontra uma palavra certa no momento certo, quando um ambiente permite que todos se sintam em casa.
O Oratório, na sua essência, não é apenas um edifício ou uma atividade semanal. É um ambiente espiritual e educativo onde cada pessoa pode crescer na fé, na amizade e no sentido de vida. É casa que acolhe sem exigir nada; é escola que ajuda a descobrir capacidades e responsabilidades; é igreja que evangeliza de modo simples e próximo; é pátio onde reina a amizade e a criatividade. É um lugar onde se pode ser verdadeiramente quem se é e onde se descobre quem se pode vir a ser.
Neste contexto, todos somos chamados a ser presença na vida dos outros. Acolher alguém com um gesto simples pode abrir portas que nem imaginamos. Ouvir com sinceridade pode transformar o dia – e às vezes a vida – de quem chega cansado ou perdido. Criar alegria através de pequenos gestos é, por si só, um modo de evangelizar. Fazer família é oferecer a cada pessoa a certeza de que há um lugar para ela, independentemente das suas fragilidades. E ser sinal de Deus não significa ser perfeito, mas ser próximo, humilde e cheio de esperança.
O Natal, celebrado no Oratório, lembra-nos que Deus continua a nascer no meio de nós sempre que escolhemos acompanhar alguém, sempre que criamos um ambiente de confiança e sempre que oferecemos alegria verdadeira. Ao fazermos isso, continuamos a obra que D. Bosco iniciou em Valdocco e tornamo-nos instrumentos de transformação. Porque a alegria salesiana não é apenas um sentimento bonito: é uma missão concreta que pode mudar vidas, uma pessoa de cada vez.
Diác. João Ensina, sdb




