A arte do despojamento: caminho interior da Quaresma

Daniela Calças

Iniciámos a Quaresma e, com ela, somos desafiados a deixar tantas coisas que se foram enraizando na nossa vida. Contudo, em vez de olharmos para este tempo litúrgico como um tempo de perdas, talvez faça mais sentido vê-lo como um tempo de escolhas. A escolha de nos privarmos de algo exterior tem como finalidade conquistar liberdade interior. Uma liberdade que, por consequência, nos conduzirá a uma vida mais unida a Deus, aos outros e a nós próprios.

Diariamente deixamo-nos envolver pelas coisas do mundo e, muitas vezes, tornamo-nos reféns daquilo que não conseguimos dar ou ser. Este é, por isso, um tempo propício para ir ao deserto e regressar ao essencial – um encontro com o silêncio que conduz a Deus, um encontro com a doação que nos abre aos outros, um encontro com o despojamento que nos leva ao mais íntimo de nós mesmos.

Se não ousarmos este caminho, no meio do cansaço, aquilo que somos e vivemos pode tornar-se vazio e sem sentido. Queremos esvaziar-nos, sim, mas para nos deixarmos preencher pelo que verdadeiramente importa.

Que, apesar do cansaço, possamos ser exemplo para os nossos alunos e colegas: educando para o essencial numa cultura de excesso; escutando sem julgar; esclarecendo antes de apontar o dedo; falando com amor e rezando, mesmo quando tudo o resto parece falhar.

Se olharmos para a nossa vida como barro que vai sendo esculpido, procuremos retirar as formas que, mesmo sem intenção, a deformam, para que possa ser novamente moldada. Somos uma obra em construção, e este tempo pode (e deve) ser ocasião para regressarmos ao simples e recomeçar. E, mesmo que pelo caminho surjam formas que não fazem sentido, tenhamos sempre a coragem de refazer. Não importa tanto quantas vezes precisamos de parar ou reorientar o percurso; importa, sim, não desistir nem deixar a obra – que é a nossa vida – a meio.

Daniela Calças | Pastoral

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