O que nos dizem os livros…

Matilde Matos

O livro retrata a vida de um jovem que aspirava ser escritor e que se muda para Nova Iorque para realizar uma pós-graduação em Literatura. É aí que conhece o seu amigo Manuel, a única pessoa com quem partilhava o que refletia sobre a literatura e a desorientação que sentia ao tentar encontrar a sua própria identidade longe de casa.

A brilhante obra Hotel Memória, escrita por João Tordo, foi publicada em 2007 e é um romance contemporâneo, sendo conhecido por ser simultaneamente um romance e um livro de aventuras. O livro retrata a vida de um jovem que aspirava ser escritor e que se muda para Nova Iorque para realizar uma pós-graduação em Literatura. É aí que conhece o seu amigo Manuel, a única pessoa com quem partilhava o que refletia sobre a literatura e a desorientação que sentia ao tentar encontrar a sua própria identidade longe de casa. É através de Manuel que conhece Kim, uma rapariga com uma personalidade complexa e bastante enigmática, mas com quem acaba por estabelecer uma relação profunda. De seguida, dá-se a morte inesperada e violenta de Kim e o protagonista entrega-se à polícia, mas, embora não seja formalmente condenado, o seu sentimento de culpa consome-o e arrasta-o para um estado de decadência profunda. Isto fez com que acabasse por perder a bolsa de estudo, fosse expulso da residência universitária e passasse a viver na rua. Para sobreviver, começa a trabalhar num restaurante chinês sob condições miseráveis. Posteriormente, sem qualquer rumo, instala-se no Hotel Memória, um edifício degradado que servia de refúgio aos que viviam à margem da sociedade, e é aqui que é contratado por Samuel, um milionário excêntrico, para atuar como detetive e encontrar um famoso fadista português que tinha desaparecido. A busca pelo fadista torna-se o seu sustento, mas, quando o encontra, é confrontado com as suas próprias angústias e com a persistência do passado.

Em primeiro lugar, é de destacar a escolha perspicaz do título e da sua profunda relação simbólica com o conteúdo narrativo. O título é a metáfora central que sustenta toda a história, ou seja, é uma metáfora para a mente e para o estado psicológico do protagonista. De facto, o hotel não é só um espaço físico, mas é também a representação da memória do narrador. Ele não consegue sair do hotel porque está preso às suas memórias, nomeadamente à culpa que sente pela morte de Kim. Por exemplo, após a morte de Kim, o protagonista revive repetidamente episódios da relação que mantiveram, recordando conversas e decisões que poderiam ter sido diferentes, como se percorresse constantemente os “quartos” da sua própria memória.

Adicionalmente, o autor da obra retrata, de uma forma excecional, o monólogo interior da personagem principal e converte os pensamentos abstratos numa experiência quase física para o leitor. A sua escrita não se limita a relatar factos, mas expõe a fragmentação da identidade de um homem consumido pela angústia e pelo remorso. Um exemplo claro disto é a descrição de como o protagonista se deixa de sentir uma pessoa enquanto trabalhava no restaurante chinês. Nesses momentos, a sua mente ficava em modo automático, pelo que este descreve os seus pensamentos como se fossem apenas o barulho das máquinas da cozinha, sentindo-se um mero objeto.

Para além disso, é possível estabelecer uma relação bastante interessante entre a escrita de João Tordo e o surrealismo de Salvador Dalí, nomeadamente com o quadro A Persistência da Memória. Neste quadro, os relógios estão derretidos, mostrando que o tempo não é rígido, podendo ser confuso e lento – na verdade, toda a paisagem reforça essa sensação de irrealidade e de distorção. No livro, a memória do protagonista funciona de forma parecida. Não é só um registo do passado, mas algo que se acumula, muda a perceção do presente e pode, inclusive, alterar quem somos.

Concluindo, a magnífica obra Hotel Memória revela-se profundamente simbólica. Efetivamente, o título funciona como uma metáfora eficaz para a mente do protagonista, que se encontra aprisionado nas suas próprias recordações. Paralelamente, é explorado o monólogo interior do mesmo, evidenciando-se a sua angústia existencial. E, por fim, à semelhança da representação do tempo na obra A persistência da memória de Salvador Dali, a memória surge como algo instável que influencia a identidade.

Matilde Matos, 12.º T1

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