Há um SolSal que só se descobre por dentro

Diana Almeida

Tudo começou no dia 8 de julho, às 16h58, com uma avó, um neto de férias e uma pergunta muito simples: “Será que ele poderia fazer voluntariado no SolSal?” Naquele momento não sabíamos onde aquela pergunta nos levaria. Hoje sabemos que valeu a pena lançar a semente.

Dia 8 de julho de 2026. 16h58. Recebemos o telefonema da avó do Nuno, aluno dos Salesianos de Lisboa, que tinha ouvido falar do SolSal na Paróquia de Santo Condestável. O neto estava de férias, sem grandes planos para ocupar os dias, e aquela avó tinha uma pergunta muito simples para nos fazer: “Será que ele poderia fazer voluntariado no SolSal?”

Estávamos a poucas semanas de agosto, mês de férias para muitos dos nossos projetos, e seria certamente mais fácil deixar esta experiência para setembro. Ainda assim, havia naquele telefonema uma semente que valia a pena lançar.

Pouco depois, falou connosco a mãe do Nuno e descobrimos uma coincidência muito bonita. Pela sua profissão, já conhecia o SolSal e já se tinha cruzado connosco no acompanhamento a crianças e jovens. Combinámos então um primeiro encontro para conhecermos o Nuno e percebermos, em conjunto, que experiência de voluntariado lhe poderíamos proporcionar.

No dia combinado, o Nuno apareceu e trouxe consigo o David, amigo e colega dos Salesianos de Lisboa. Finalistas do 9.º ano, chegaram com um olhar curioso e um brilho nos olhos que não passavam despercebidos. Do SolSal apenas conheciam as campanhas de Natal a favor das famílias acompanhadas, que mobilizam toda a comunidade educativa. Naquele dia, porém, atravessavam a porta para o conhecer por dentro, através das pessoas, das histórias e das realidades que fazem parte da sua missão.

Entre as possibilidades que tínhamos naquele momento, a mais simples seria colaborarem na preparação e entrega dos cabazes alimentares. Talvez fosse também a escolha mais óbvia para uma primeira experiência de voluntariado. Contudo, enquanto conversávamos com eles, aconteceu uma daquelas intuições difíceis de explicar. Olhámos para aqueles dois jovens, para o olhar curioso, o brilho nos olhos e a disponibilidade com que tinham chegado, e sentimos que aquela semente podia encontrar ali espaço para crescer um pouco mais. Falámos-lhes então do Centro Juvenil que o SolSal dinamiza na Quinta do Loureiro e da possibilidade de passarem alguns dias connosco.

Explicámos-lhes que ali encontrariam crianças e jovens com histórias, contextos e experiências de vida muito diferentes das suas. Quando chegou o momento de escolher, não hesitaram. Com aquela coragem e aquela confiança tão próprias da sua idade, e com quem tantas vezes temos muito a aprender, escolheram o Centro Juvenil da Quinta do Loureiro.

A certeza deles não apagou, porém, as nossas dúvidas. Eram dois jovens ainda muito novos e sentíamos a responsabilidade de garantir que aquela experiência seria segura, cuidada e verdadeiramente enriquecedora para todos. Conversámos com as famílias, ponderámos o que era necessário e preparámos a sua participação com todos os cuidados. Depois, confiámos. Neles, nos jovens que iriam encontrar e na força que pode ter um encontro quando lhe damos espaço para acontecer.

Foram quatro dias. Quatro dias que rapidamente nos mostraram que talvez o Nuno e o David tivessem percebido antes de nós que as diferenças que tanto pesam quando as imaginamos podem tornar-se muito pequenas quando nos encontramos. As histórias e as realidades de cada um não foram barreiras. Entre conversas, brincadeiras e jogos, descobriram o que tinham em comum e a proximidade aconteceu com uma naturalidade inspiradora.

Há uma fotografia que guarda um pouco desses dias. À volta de uma mesa de matraquilhos estão vários jovens e, na parede, Dom Bosco olha por eles. A imagem mostra, sem precisar de muitas palavras, aquilo que aconteceu ali. Não havia os “alunos dos Salesianos” de um lado e os “jovens da Quinta do Loureiro” do outro. Havia simplesmente jovens, diferentes nas suas histórias, mas capazes de partilhar e crescer juntos.

Podíamos terminar a história aqui e já teríamos uma bonita história de verão. Contudo, a semente lançada naqueles quatro dias cresceu.

O Nuno e o David quiseram continuar por perto. A experiência que tinha começado quase por acaso, a partir do telefonema de uma avó numa tarde de julho, não ia terminar na Quinta do Loureiro. Tinha despertado neles a vontade de continuar a dar tempo, presença e aquilo que sabem aos outros.

Neste ano educativo-pastoral vão regressar ao SolSal, agora como voluntários no Polo do SolSal de Santo Condestável, acompanhando os mais pequenos no apoio ao estudo. Não será este o fruto mais bonito daquela primeira experiência? Quando damos aos jovens oportunidades verdadeiras para colocarem o que são ao serviço de quem mais precisa, não estamos apenas a pedir-lhes que ajudem. Estamos a confiar neles, a ajudá-los a descobrir o lugar que podem ocupar na vida de alguém e a permitir que cresçam enquanto fazem crescer.

Tudo começou no dia 8 de julho, às 16h58, com uma avó, um neto de férias e uma pergunta muito simples: “Será que ele poderia fazer voluntariado no SolSal?” Naquele momento não sabíamos onde aquela pergunta nos levaria. Hoje sabemos que valeu a pena lançar a semente.

Diana Almeida | Coordenadora SolSal