[…] “As respostas enunciadas tendem, geralmente, a ser pautadas pelo imediatismo e, por isso, a dirigirem-se ao que é mais evidente: reforçar regras, aumentar apoios, repetir conteúdos, criar mais uma medida ou acrescentar mais uma atividade.” […] “O modelo do iceberg, associado ao pensamento sistémico, desafia esta lógica. Sob esta perspetiva, cada acontecimento é apenas a parte visível do problema efetivo.”
Em tempos de uma escola massificada e num Portugal com uma taxa de abandono escolar de 8%, para além deste problema outros demarcam o quotidiano das instituições educativas: os resultados baixos sinalizando carestia nas aprendizagens, a indisciplina, a desmotivação, a pouca participação nas atividades de ensino-aprendizagem, as dificuldades persistentes de alguns alunos, etc. As respostas enunciadas tendem, geralmente, a ser pautadas pelo imediatismo e, por isso, a dirigirem-se ao que é mais evidente: reforçar regras, aumentar apoios, repetir conteúdos, criar mais uma medida ou acrescentar mais uma atividade.
Esta superficialidade na abordagem não se compadece da complexidade do sistema e, por isso, talvez determine a própria persistência dos problemas. O modelo do iceberg, associado ao pensamento sistémico, desafia esta lógica. Sob esta perspetiva, cada acontecimento é apenas a parte visível do problema efetivo. Debaixo da superfície encontram-se padrões que se repetem, estruturas que os favorecem e modelos mentais que sustentam essas estruturas. Um aluno que não participa pode apenas ser o acontecimento. Se isso se repete com determinados alunos, então há um padrão. Se a organização da aula privilegia sistematicamente a exposição e a resposta dos mais rápidos, então encontramos uma estrutura. E se acreditarmos que ‘quem quer aprende’ ou que ‘dar a palavra a todos é perder tempo’, começamos a tocar nos modelos mentais que moldam toda a organização. O mesmo acontece na gestão escolar. Problemas de articulação, colaboração autêntica ou inovação raramente se resolvem apenas criando novas equipas, medidas, planos, documentos ou procedimentos. Importa compreender que rotinas, formas de organização, relações de poder ou crenças profissionais os continuam a produzir.
Pensar de forma sistémica, analisando todas as partes e dimensões do problema poderá ativar soluções com maior potencial de resolução do problema. Pensar através do modelo do iceberg não significa, necessariamente, complicar os problemas. Significa evitar soluções rápidas e superficiais para problemas mal compreendidos. Na sala de aula ou na gestão da escola, talvez a pergunta mais importante não seja apenas ‘por que está a acontecer?’, mas sobretudo: ‘o que, no nosso modo de organizar, ensinar e pensar, faz com que isto continue a acontecer?’. Significa, numa abordagem colaborativa, as equipas de professores e outros profissionais beneficiarem da oportunidade para refletirem sobre os próprios modelos mentais e sobre a estrutura organizacional que alimenta os padrões e acontecimentos e que, portanto, reforçam o problema. É neste processo analítico que a mudança efetiva pode começar com maior potencial de se afirmar de forma sustentável.
Lídia Serra




