Diana Almeida
Habituada aos “nãos”, às portas que se tinham fechado e às dificuldades e burocracias que tantas vezes tinha encontrado, havia ainda algum medo no seu olhar quando me perguntou o que seria preciso fazer. A resposta foi muito mais simples do que esperava: “Ele pode vir já esta tarde. Nós estaremos cá para o receber.”
A semana estava apenas a começar quando, na segunda-feira de manhã, cheguei ao SolSal. Ia apressada, já a pensar nas várias tarefas que tinha pela frente naquela manhã, quando reparei numa mulher sentada no pequeno muro em frente à nossa porta.
Não sabia se tinha parado apenas para descansar ou se estava à nossa espera. Cumprimentei-a com um bom dia e, quando os nossos olhares se cruzaram, percebi que tinha vindo até nós. Há coisas que os anos de trabalho nos vão ensinando a reconhecer e aquele olhar trazia claramente um pedido de ajuda. Era o olhar de uma mãe preocupada com o filho e sem saber como resolver aquilo que a tinha levado até ali.
Convidei-a a entrar. Naquele momento, as tarefas que tinha pela frente e a reunião que me esperava deixaram de ser o mais importante. Diante de mim estava uma mãe que precisava de ser recebida, escutada e acolhida com amor, e era ali que eu precisava de estar.
Ainda nervosa, começou a contar-me que o filho tinha entrado para o 5.º ano e que tinha todas as tardes livres. Não tinha conseguido vaga em nenhum ATL e ela trabalhava até às 17h30. Era uma família humilde, que dependia do seu trabalho, e não havia avós, familiares ou alguém próximo a quem pudesse pedir ajuda. A preocupação daquela mãe era tão simples de explicar quanto difícil de resolver para ela: onde ficaria o filho durante todas aquelas tardes enquanto ela trabalhava? Preocupava-a pensar no filho sozinho durante tantas tardes, sem acompanhamento e sem um lugar seguro onde estar, e receava que, com o tempo, pudesse aproximar-se de caminhos que não queria para ele.
Uma colaboradora dos Salesianos de Lisboa, cuja filha frequenta a mesma escola do filho, tinha-lhe falado do SolSal e dito que viesse ter connosco e que, por certo, iríamos ajudá-la a encontrar uma solução.
Fui-lhe apresentando o nosso Centro Juvenil, mostrei-lhe os espaços e falei-lhe das atividades que ocupam as tardes das nossas crianças e jovens, entre o apoio ao estudo, as atividades, os momentos de brincadeira e tudo aquilo que vai acontecendo num lugar onde queremos que cada criança e jovem se sinta parte de uma “família”.
Habituada aos “nãos”, às portas que se tinham fechado e às dificuldades e burocracias que tantas vezes tinha encontrado, havia ainda algum medo no seu olhar quando me perguntou o que seria preciso fazer. A resposta foi muito mais simples do que esperava: “Ele pode vir já esta tarde. Nós estaremos cá para o receber.”
Foi um “sim” simples e alegre, acompanhado da certeza de que o Gabriel teria ali um lugar e seria recebido e integrado com todo o cuidado e carinho. Nesse momento, as lágrimas que até então tinha conseguido conter soltaram-se. Abraçou-me com uma força que ainda hoje consigo sentir. Foi talvez um dos abraços mais fortes que alguma vez recebi, carregado de toda a preocupação e medo que aquela mãe tinha trazido consigo e, naquele momento, também de um enorme alívio.
Também eu me emocionei naquele abraço e continuo a emocionar-me quando o recordo.
Nessa mesma tarde, o Gabriel chegou ao SolSal. Recebemo-lo como lhe tínhamos prometido e rapidamente começou a descobrir aquele que passaria também a ser o seu espaço. Estudou, brincou com as outras crianças e participou na sessão desse dia sobre internet segura. Era apenas a sua primeira tarde connosco, mas, ao vê-lo no meio dos outros, parecia que já fazia parte da nossa “família” há muito tempo.
A certa altura, tirámos uma fotografia juntos, com sorrisos que não precisam de palavras. Enviámo-la à mãe e, enquanto trabalhava, aquela mãe que poucas horas antes estava sentada num muro sem saber onde o filho poderia ficar recebeu a resposta que ainda precisava de ver: o Gabriel estava bem, estava seguro e estava feliz.
Naquela segunda-feira, não resolvemos todos os problemas daquela família, nem era isso que estava nas nossas mãos fazer. Conseguimos, simplesmente, dar resposta a uma preocupação que, para aquela mãe, era enorme. Às vezes, o amor toma a forma de uma resposta muito concreta na vida de alguém. Ali, teve a forma de uma porta aberta, de um lugar seguro para o filho e de um abraço que ainda hoje fica connosco.
Durante a semana fomos recebendo mais crianças pela primeira vez. O Gabriel, já tão confiante naquele espaço que parecia seu há muito tempo, quis ser ele a apresentar-lhes o SolSal e a mostrar-lhes tudo.
Há poucas formas mais bonitas de perceber que alguém já se sente parte de uma família do que vê-lo, poucos dias depois de chegar, a querer acolher os outros com a mesma alegria com que foi recebido.
Diana Almeida | Coordenadora do SolSal




