A arte de educar com amor firme

Marta Figueira

Como mãe, reconheço-me muito neste caminho. Percebo que educar exige atenção e oportunidade. Cada disparate do filho é uma ocasião para formar a consciência. Mas é preciso estar atento e não deixar passar o momento. Há conversas que, se não acontecem na hora certa, perdem força e sentido. Aprendi também que o modo como se fala é tão importante quanto aquilo que se diz.

Mãe Margarida tinha um olhar atento. Via, em cada gesto dos filhos, uma oportunidade para formar a consciência. Não deixava passar os momentos importantes, porque sabia que educar não é apenas corrigir comportamentos, mas ajudar a crescer por dentro.

Cada disparate, cada falha, cada palavra fora do lugar era, para ela, um instante precioso. Não para humilhar, nem para descarregar o cansaço, mas para ensinar. E ensinava com calma. Falava pouco, mas com clareza. Era firme, sem ser dura. As suas palavras não confundiam, porque nasciam de um coração sereno.

Foi assim que Dom Bosco cresceu. Filho de uma mãe simples, viúva e trabalhadora, aprendeu desde cedo que o amor verdadeiro não dispensa a exigência. Margarida corrigia, mas nunca feria; exigia, mas nunca afastava. João Bosco sentiu-se amado mesmo quando era repreendido. E isso marcou-o para sempre.

Mais tarde, quando se tornou educador de tantos jovens pobres e difíceis, Dom Bosco fez exatamente o mesmo. Transpôs para o Oratório aquilo que recebera em casa: uma presença próxima, um olhar atento, uma palavra firme dita no momento certo. A sua pedagogia não nasceu de teorias, mas da experiência vivida como filho. Sabia que os jovens escutam melhor quando se sentem seguros, acolhidos, respeitados. Por isso corrigia sem gritar, chamava à parte, falava com calma e clareza a famosa “palavra ao ouvido”.  Preferia ganhar o coração antes de exigir a mudança.

Como mãe, reconheço-me muito neste caminho. Percebo que educar exige atenção e oportunidade. Cada disparate do filho é uma ocasião para formar a consciência. Mas é preciso estar atento e não deixar passar o momento. Há conversas que, se não acontecem na hora certa, perdem força e sentido.

Aprendi também que o modo como se fala é tão importante quanto aquilo que se diz. Qualquer pessoa escuta com mais atenção quanto menos barulho se faz. A firmeza não está no tom alto, mas na clareza das palavras e na coerência da voz.

Recordo um episódio concreto. Havia um comportamento do meu filho que precisava de ser corrigido. Não quis adiar, mas escolhi o momento. Convidei-o para almoçar a sua comida preferida: sushi. Por um lado, porque queria que estivesse confortável e disponível para me escutar. Por outro, porque num local público tendemos naturalmente a controlar o tom de voz, evitando que a conversa se transforme num confronto. Falei com calma. Fui clara. Disse o que precisava de ser dito, sem rodeios, mas também sem ferir. Ele escutou. Não porque estivesse num restaurante ou a comer sushi, mas porque se sentiu amado mesmo na correção.

Educar com amor firme é isto. Não deixar passar o momento. Criar as condições para que a palavra seja escutada. Ser claro para não gerar confusão. E, acima de tudo, corrigir sem nunca retirar o amor.

Mãe Margarida ensinou isso ao seu filho. Dom Bosco ofereceu-o aos jovens do seu tempo. E nós, pais e educadores, somos hoje chamados a fazer o mesmo: formar consciências com firmeza, sim, mas sempre habitadas pela doçura.

Marta Figueira | Pastoral

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