Era uma vez uma nota

Luís Carlos Peleira

Há notas que não se ouvem à primeira.
Não porque sejam fracas, mas porque são discretas. Dessas que sustentam a harmonia sem pedir protagonismo. Estão lá, firmes, afinadas, dedicadas à partitura como quem se entrega a algo maior do que si próprio.
Numa obra sublime, havia uma nota assim.

As outras sabiam e batiam palmas.

Nunca falhava o compasso. Mesmo quando o andamento apertava ou quando o silêncio à sua volta parecia pesado demais.

Sozinha. Sorria.

Como se só ela conseguisse ouvir toda a melodia daquela obra. Era uma nota que acreditava, que brilhava, que fazia brilhar todas as outras.

E as outras sabiam e batiam palmas. Ela sorria.

Mas o brilho, mesmo contido, incomoda. Incomoda outras que vivem de ruído ou de silêncios – que não são música – mas ausência. Silêncios que são pausas forçadas. Erros.

Um dia, esses erros, feriram a nota e a obra ficou mais pobre, mais oca, mais distante daquilo que poderia ter sido, aquela nota já não estava onde era suposto e não gostava onde a tinham colocado.

Já ninguém batia palmas. Ninguém sorria. Nem aquela nota.

Há partituras que nunca chegam a cumprir o seu destino. Não porque a obra é fraca, mas porque alguém decidiu que certas notas são dispensáveis. Mas não são.

 Nenhuma obra verdadeiramente bela se constrói apagando o que lhe dá vida.

Talvez, um dia, alguém volte a ouvir esta nota — como aquilo que sempre foi: essencial.

Mesmo cansada, quando parecia já não haver força, brilhava — e todos sorriam e batiam palmas.

Luís Carlos Peleira – Diretor do Musicentro de Lisboa

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