Maria Proença dos Santos
Na fabulosa obra O Jogador, Fiódor Dostoievski, constrói um romance à volta da vida do narrador autodiegético, Alexis Ivanovitch, um professor que trabalha para uma família aristocrática russa e que se vê envolvido no seu drama familiar, dívidas e pretensões. Para além disso, nesta narrativa visceral, observa-se o conflito entre o amor que sente por Pauline Alexandrovna, enteada do general, que representa a família e que procura obter a herança da sua tia, referida no livro como a avó, e o amor que tem pelo jogo da roleta, identificando-se um conflito interior obsessivo entre estas duas realidades.
De facto, o autor parte de um mero vício e transforma-o numa análise à perda de autonomia e à autodestruição, terminando a história com a impossibilidade de renovação e mudança de comportamento, deixando claro que a personagem principal escolhe o jogo e que viverá o resto da sua vida à volta do mesmo.

Primeiramente, é de destacar a escolha que Alexis faz. Efetivamente, Dostoievski, expõe, de forma brilhante, a facilidade e rapidez do jogo, que só tem dois resultados, ganhar ou perder, contrastando-o com o amor que é marcado pela ambiguidade, insegurança e, por vezes, irracionalidade. Enquanto a roleta oferece uma resposta imediata e aparentemente objetiva, o amor exige vulnerabilidade, entrega e capacidade de lidar com a frustração, aspetos que Alexis revela não conseguir sustentar emocionalmente. Desta forma, justifica-se a posição da personagem, que prefere manter-se neste círculo vicioso de ir ao casino e tornar-se rico perdendo tudo no dia seguinte, visto que esta alimenta a sua excitação e reforça a sua dependência. Assim, é também possível relacionar esta decisão com o ditado “Sorte ao jogo, azar ao amor”, já que ambos enfatizam a impossibilidade de estas realidades coexistirem.
Em segundo lugar, é de extrema relevância a crítica social construída pelo autor. Na verdade, a esperança que a família depositava na morte da avó e a desilusão que sentiram quando esta apareceu e perdeu o dinheiro impulsivamente no jogo assumem uma dimensão satírica, contribuindo para uma crítica mordaz à aristocracia dependente e ao utilitarismo familiar, que se estendem até aos dias de hoje, mais de cem anos depois da escrita do livro. De facto, a atitude dos familiares revela uma ausência total de afeto genuíno, substituído por um cálculo frio e interesseiro, no qual a morte é encarada como oportunidade económica, evidenciando que a verdadeira falência não é monetária, mas sim ética e moral e denunciando, assim, a hipocrisia de uma elite em decadência.
Por fim, destaca-se também a relação que se estabelece entre esta obra e o quadro Os Jogadores de Cartas, de Paul Cézanne. Efetivamente, é possível fazer um paralelismo entre o sentimento transmitido de forma genial no livro, enquanto Alexis Ivanovitch jogava no casino, e as expressões faciais dos homens representados na pintura que parecem alheados ao mundo à sua volta. Tal como a personagem principal de O Jogador, estes cinco homens encontram-se focados no jogo e despreocupados com o mundo exterior. Para além disso, este provoca um sentimento de ânsia, sofrimento e incerteza, evidenciado ao longo da história e na tristeza e decadência transmitida pelas cores do quadro e caras dos seus elementos.
Em suma, a extraordinária obra de Fiódor Dostoievski, é mais do que uma narrativa sobre o vício no jogo, é uma análise psicológica e social que expõe problemas intemporais como o parasitismo e interesse familiar e enfatiza a facilidade do jogo e de mergulhar no vício e na autodestruição, perdendo tudo e todos à custa do mesmo. Adicionalmente, é possível estabelecer uma relação entre a obra e a pintura de Cézanne, já que em ambas é exposto o sentimento por detrás do jogo e a miséria vivida por quem tem esta adição. Assim, a perturbadora história confirma que a verdadeira prisão do ser humano é feita pelas escolhas que cada um faz.
Maria Proença dos Santos, 12.ºT1




