1953 / 1954: duas novas publicações

Frederico Pimenta

Linhas convergentes

Releitura dos documentos originais da história dos Salesianos em Portugal. Trabalho ímpar de tantos investigadores, com especial destaque para o Pe. Amador Anjos, historiador, conhecedor profundo e inspirador de dissertações e teses sobre a vida e obra dos Salesianos em Portugal.

1953 / 1954: duas novas publicações

No período histórico de 1953 e 1954, o poder em Portugal centralizava-se em dois nomes: Craveiro Lopes e Oliveira Salazar. O primeiro, com o exercício de Presidente da República, e o segundo, como Presidente do Conselho de Ministros. Estamos neste momento cronológico no período do Estado Novo, iniciado em 1933, após a aprovação da Constituição então delineada.

No âmbito do mundo salesiano, destacaram-se os nomes de Pe. Renato Ziggiotti, Agenor Vieira Pontes e Armando Monteiro, respetivamente, Reitor Mor, Inspetor da Província portuguesa e o Diretor das Oficinas de S. José (OSJ). Neste particular, destaque ainda para a figura do Pe. Ismael Matos, pois dele encontramos a figura primordial dos documentos que se observam nos parágrafos seguintes. Analisar a sua vida e obra será tarefa hercúlea, conquanto já iniciada por D. Ximenes Belo, (1) que, em escrita clara e generosa, encontrou os trilhos da edificação da figura ímpar do Pe. Ismael. 

Os anos de 1953 e 1954 assistiram respetivamente ao nascimento de duas publicações destinadas a grupos de leitores muito específicos. Ressalvo o facto de esse nascimento ocorrer no espaço das OSJ. Em artigo referente ao aspeto da imprensa sob responsabilidade dos Salesianos, abordei, de forma esquemática, os títulos das publicações que brotaram como respostas às necessidades existentes neste capítulo da imprensa, assunto tão caro a D. Bosco, e que se tornaram suportes ao caminho de evangelização e igualmente espaços às respostas sociais persistentes.

Desse elenco, folheamos hoje dois títulos: Social e Esperança. 

 Do primeiro, (2) destacamos o 1.º número do ano da sua criação, em 8 de dezembro de 1953. Apresentou-se como “Suplemento mensal do Boletim Salesiano dedicado aos operários”. Mais transmite que a Redação e Administração pertenciam ao Secretariado das Obras de D. Bosco, sito na Travessa dos Prazeres, número 34, na cidade de Lisboa. A composição e impressão realizavam-se nas Oficinas de S. José. O primeiro destaque desta publicação deu-se no Boletim Salesiano (BS), ano XIII, número 88, janeiro/fevereiro de 1954. Apresentou ainda a seguinte nota: “Se é amigo das classes trabalhadoras, adquira este jornalzinho e divulgue-o entre os operários”.

Nas quatro páginas deste primeiro Social, podemos ler os seguintes títulos:

  • Que é um homem?
  • Coração de pai;
  • Jardim Zoológico, Fábulas, I – As duas rãs;
  • Humorismo;
  • Medicina caseira – o limão, bolo de limão;
  •  Utilidades;
  • A alegria, privilégio do trabalhador;
  • O ódio e o amor – juntaram-se os dois à esquina (Duelo em I acto).

No primeiro ano da sua existência, aqui observada concisamente, a publicação abordou vários assuntos relacionados, por exemplo, com o valor do Homem, estabelecendo comparações com diferentes momentos e aspetos próprios de cada período histórico, como o futebol e os valores dos jogadores, bem como o preço dos funerais, e concluindo com o “(…) valor intrínseco da sua dignidade, da sua racionalidade, da sua grandeza, da sua superioridade como ser… humano!” (3)

A par da dignidade e do valor do trabalho, refere-se ainda a necessidade essencial da habitação, tema que percorreu os primeiros números do Social. Elegeu-se ao longo do ano o problema da habitação, protagonizando a defesa de mais casas, casas mais baratas, casas mais higiénicas e casas para os pobres. Tema recorrente da Acão dos Salesianos, surge o dilema dos jovens aprendizes operários, concluindo-se que “Toda a educação da infância, por mais esmerada e consciente que seja, ficará fatalmente comprometida se aos 14 anos não for continuada com maior vigilância através de toda a sua juventude”. (4)

Sob o axioma “Saúde, Alegria e Sol”, demonstrou-se a carência da existência de tempos livres para os jovens, enaltecendo nas suas páginas o papel das colónias de férias para os filhos de operários, realçando o modelo da Companhia União Fabril (CUF), com a criação de espaços e momentos para o salutar desenvolvimento dos jovens. Necessários e igualmente invocados foram os momentos de orientação profissional.

A publicação de julho de 1954 descreve a exposição didático-profissional levada a efeito no Palácio Foz, em Lisboa, onde se protagonizou “A glória do trabalho e a defesa do trabalhador”. (5) Pensamento que distingue o Fundador, D. Bosco, e a sua obra orientada para “(…) valorizar e enobrecer o operário”. (6)

Atenta às movimentações sociais e políticas, vemos na publicação número 10, de setembro de 1954, a divulgação das lutas travadas na Índia, no momento da ocupação do território, essencialmente Damão, então português, pela União indiana. Em sintonia com a tomada de posição do governo português, a publicação Social aborda essa notícia e intitula essa informação com a frase: “No coração dos operários portugueses também palpita viva e forte o nobre sentimento do patriotismo”. (7)

Ainda neste número, o Secretariado das Obras de D. Bosco apela à colaboração no apoio a esta publicação através da propaganda, aceitando anúncios publicitários que se juntam às dádivas de benfeitores. A resposta surge, no número 12 da publicação, através do Fosfato Thomas, empresa sediada na Rua Sampaio Bruno: “Se sabe o que faz, adube com Fosfato Thomas”. 

A publicação número 11 do mês de outubro de 1954 continha oito páginas por motivo da resumida biografia de D. Bosco intitulada “O maior trabalhador do século XIX – De aprendiz de operário a educador de escolas profissionais” que iniciou a publicação neste número.

Do segundo, (8) destacamos o 1.º número do ano da sua criação, em 19 de março de 1954. Faremos, neste artigo, a apresentação até à data de fevereiro de 1955, a que corresponde o número 12. Apresentou-se como “Suplemento gratuito do Boletim Salesiano dedicado aos doentes”. Mais transmite que a Redação e Administração pertenciam ao Secretariado das Obras de D. Bosco, sito na Travessa dos Prazeres, número 34, na cidade de Lisboa. A composição e impressão realizavam-se nas Escolas Profissionais Salesianas – Oficinas de S. José.

Nas quatro páginas deste primeiro Esperança, podemos ler os seguintes títulos:

1ª Página

  • Visita de médico, assinado pelo Dr. Rádio X que traz subjacente a pena do Pe. Ismael. O texto inicial / editorial abordou assuntos sobra a beleza da vida e a importância da coragem, do otimismo e da esperança no contexto da doença.
  • Esperança – frase da autoria de Péguy: (9) Pequena reflexão sobre o tema do título.
  • Uma lenda; – pequeno texto de características humorísticas.
  • O nosso jornal. Esclarecimento sobre a finalidade desta publicação e os lugares imperativos para a sua distribuição.

Páginas interiores

  • Medicina de Deus; texto sobre o anjo Rafael, o significado do nome e os milagres realizados.
  • Curiosidades – explicação sobre o trabalhar do coração humano; importância deste órgão do corpo humano, sua descrição e características.
  • Espaço humorístico;
  • Gravura de N. Sra. Auxiliadora;
  • 19 de Março; texto sobre S. José as, suas características e universalidade.
  • O ladrão do Céu; dois textos sobre o olhar de Deus e sobre os desafios que representa para o ser humano.
  • Descobertas – Remédio para as constipações; uma interrogação sobre mezinhas para a cura de doenças.

Última página

  • Carta
  • D. Bosco e os doentes (Episódios da sua vida) 1 – Pílulas misteriosas.
  • Espaço humorístico.

Além do pensamento de Péguy, nesta primeira publicação, surgiram ao longo do ano e na primeira página outros pensadores como Oliveira Martins, Pasteur, Padre António Vieira, Papa Pio XII e Padre Moreira das Neves.

O visual gráfico do título Esperança alterou-se em outubro de 1954, no número 8 desta folha da Imprensa Salesiana.

No número 10 desta relação surge um pequeno anúncio, com a seguinte recomendação para a agricultura: “Se sabe o que faz, adube com fosfatos Thomas”. (10) Este anúncio proveio dos Serviços agronómicos do fosfato Thomas, sito na rua Sampaio Bruno, igualmente na zona de Campo de Ourique. Repetiu-se a publicidade no nº. 11 e seguintes.

No momento do primeiro ano de publicação, o nº. 12 desta folha apresentou o cômputo geral do trabalho desenvolvido, agradecendo também aos leitores e benfeitores que colaboraram nesse primeiro ano. No editorial, testemunhamos os números referentes à distribuição e locais, assim sendo: 61.500 exemplares, 93 hospitais e casas de saúde e “(…) centenas de doentes, que vivem no seu domicílio”. (10)

O n.º 10 foi publicado com oito páginas em virtude do destaque que se deu ao encerramento do ano centenário do dogma da Imaculada Conceição e “(…) ao pedido de muitos doentes (…)”. (11)

__________________________________________________________________________

  • Belo, Ximenes, Ismael Matos, o padre da boa imprensa, Edições Salesianas, Porto, 2016.
  • Social, Ano I, N.º 1, Dezembro, 1953.
  • Social, Ano I, N.º 2, Janeiro, 1954.
  • Social, Ano I, N.º 6, Maio, 1954.
  • Social, Ano I, N.º 8, Julho, 1954.
  • Social, Ano I, N.º 8, Julho, 1954.
  • Social, Ano I, N.º 10, Setembro, 1954.
  • Esperança, Ano I, N.º 1, Março, 1954.
  • Charles-Pierre Péguy – 1873 – 1914. Foi escritor, poeta, ensaísta, jornalista, filósofo, dramaturgo e crítico literário. Seguidor do socialismo, tornou-se católico a partir de 1908.
  •  Esperança, Ano I, N.º 12, Fevereiro, 1955.
  • Esperança, Ano I, N.º 10, Dezembro, 1954.