Até um lugar se chamar “casa”

Diana Almeida

Neste caminho de inclusão, a verdadeira questão não é apenas saber se quem chega consegue encontrar um lugar, mas perceber se somos capazes de nos tornar um lugar onde se chega com tanto deixado para trás e onde, devagar, se lançam novas sementes, se criam raízes e começa a nascer aquilo a que também se pode chamar “casa”.

No próximo dia 27 de setembro, a Igreja assinala o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. No SolSal, não precisamos de procurar muito longe para encontrar o significado desta data. Ele entra-nos pela porta todos os dias, traz nomes, sotaques, histórias, perguntas, saudades e, muitas vezes, uma coragem que só vamos descobrindo quando escutamos.

Nas nossas tardes, crianças e jovens de diferentes países encontram-se à volta da mesma mesa, fazem os trabalhos da escola, jogam à bola, aprendem uns com os outros e vão descobrindo formas de comunicar mesmo quando as palavras ainda não chegam para tudo. São eles próprios a tornar simples aquilo que nós, adultos, complicamos. Um jogo não pergunta de onde se veio antes de começar. Uma bola passa de uns pés para os outros sem conhecer fronteiras. Ao fim de algum tempo, já ninguém se lembra de perguntar quem chegou de onde. Conhecem-se os nomes.

Sabemos, porém, que chegar a um novo país é muito mais do que aprender uma nova língua ou encontrar novos amigos. É preciso reconstruir referências, compreender regras que não se conhecem, tratar de documentos, encontrar respostas, procurar trabalho, escola ou apoio e aprender a viver numa realidade que, durante algum tempo, pode parecer estranha. Por detrás de cada criança e jovem que acolhemos há também uma família à procura de colo.

É por isso que, no SolSal, procuramos que o acolhimento vá além da “porta aberta”. No Centro de Apoio ao Migrante, acompanhamos quem precisa de orientação perante os muitos desafios de começar ou recomeçar num novo lugar. No Centro de Inclusão Comunitária, criamos oportunidades de encontro, participação e pertença, porque estar incluído não é apenas estar num lugar. É sentir que também se faz parte dele.

Há, ainda, uma outra dimensão do acolhimento que não cabe em nenhum serviço ou resposta social. Acolher não é apenas ajudar quem chega a encontrar o seu lugar. É permitir que a sua chegada transforme também o lugar que já existia. Uma língua diferente, uma história familiar, uma receita, uma música, uma maneira de celebrar, de cuidar ou de olhar o mundo podem alargar a comunidade que já existia antes da sua chegada.

No SolSal, queremos que cada criança, cada jovem e cada família encontre respostas quando precisa delas, mas queremos sobretudo que encontre pessoas. Há necessidades que se resolvem com informação, encaminhamento e acompanhamento, e outras, igualmente importantes, que só começam a encontrar resposta quando nos rostos dessas pessoas existe humanidade.

Na verdade, neste caminho de inclusão, a verdadeira questão não é apenas saber se quem chega consegue encontrar um lugar, mas perceber se somos capazes de nos tornar um lugar onde se chega com tanto deixado para trás e onde, devagar, se lançam novas sementes, se criam raízes e começa a nascer aquilo a que também se pode chamar “casa”.

Diana Almeida | Coordenadora do SolSal