O que nos dizem os livros…

O ano é 1984: para o leitor, passado; para o autor, George Orwell, futuro; para o protagonista, Winston Smith, presente. Trata-se de um período marcado por um governo autoritário e repressivo, instaurado após a Segunda Guerra Mundial, que aparenta ser eterno e inabalável, controlando a população através da doutrinação e do medo. De facto, Smith integra a classe média, que corresponde à “Ordem Exterior” do Partido. Trabalha no Ministério da Verdade, cujo trabalho é mentir, corrigindo os factos da História presentes em registos como jornais, para que se adequem à versão oficial, em constante mudança, da realidade, apagando os originais para sempre. No entanto, tudo muda quando Winston compra um diário e cede aos seus impulsos, escrevendo “morte ao Grande Irmão”, o supremo líder da nação, incorrendo na mais grave das infrações. Assim, o protagonista, consciente da vigilância perpétua, considera-se um homem morto, vivendo com um medo que eventualmente se dissipa em favor da sensação de libertação que sente. Ainda assim, o inevitável acontece quando Smith e Júlia, o seu interesse amoroso, são presos por um agente da Polícia do Pensamento que se fez passar por um membro da resistência mítica ao regime chamada “Fraternidade”.

Em primeiro lugar, esta obra é extremamente angustiante, uma vez que, desde o momento em que Winston escreve aquelas palavras, o seu destino é tão permanente como a tinta da sua caneta. Assim, o medo sentido pela personagem, que passa a viver de forma paranoica e hipervigilante, é partilhado de forma intensa com o leitor. Além disso, o destino de Smith funciona como um peso que aumenta com cada relato de um colega ou vizinho que é capturado e transformado numa “impessoa”, alguém que nunca existiu. Desta maneira, a angústia e o desespero do leitor culminam quando Winston lê o livro da Fraternidade e chega à conclusão, tal como o leitor, de que a opressão só acabará com uma revolução da numerosa classe baixa, evidentemente impossível devido ao incrível controlo do Partido. Isto é evidenciado quando a Polícia do Pensamento entra na sala e captura o casal. Não obstante, Winston pratica uma resistência fútil à tortura intensa a que é exposto, convencendo-se de que, quando for executado, o seu último pensamento será “Morte ao Grande Irmão”. No entanto, isto é inútil, pois a reeducação do Partido é tão intensa que ele acaba por morrer, para desilusão do leitor, aceitando todos os dogmas e morrendo a amar o Grande Irmão.

Em segundo lugar, 1984 é um livro alarmante, servindo de aviso à sociedade atual, mais de 40 anos após a de Smith, mas na qual muitos dos traços que tornam a sua realidade distópica transitam cada vez mais da ficção para a realidade. Efetivamente, é com Júlia que é possível traçar o maior paralelismo com as pessoas da sociedade atual. Esta personagem está consciente da opressão e da vigilância impostas pelo Estado e das suas consequências na liberdade e bem-estar da população, mas opta, frustrantemente, por não fazer nada e limita-se ao que lhe interessa, não mostrando qualquer solidariedade, embora, por vezes, se enfureça contra o Partido e as restrições impostas. Desta maneira, o livro serve de alerta às pessoas que reconhecem os erros e as falhas no modo como funciona o mundo que as rodeia, mas não se esforçam para os corrigir. Note-se que, no fim da ação, Júlia tem o mesmo destino que Smith, mesmo estando inicialmente indiferente à resistência.

Por fim, esta obra pode ser relacionada com Fahrenheit 451, já que partilham o tema distópico e ambos os protagonistas têm funções relacionadas com a manipulação da informação. Com efeito, Winston reescreve documentos e manda os originais para serem destruídos, e o protagonista da obra de Ray Bradbury queima livros. Assim, o fogo e a destruição do passado e da objetividade ligam as narrativas, onde as chamas têm um papel-chave no controlo da realidade.
Em suma, 1984, de George Orwell, foca-se em Winston Smith, dissidente do regime opressivo que se condena à morte ao trair os ideais do Partido, tornando o resto da história profundamente angustiante para o leitor devido à certeza do seu destino, que entra em conflito com o desejo por um desfecho melhor. Adicionalmente, é um livro alarmante na medida em que alerta para as consequências da inação perante a opressão, destacando a hipocrisia de reclamar dos sistemas disfuncionais sem os tentar corrigir. Na verdade, a obra relaciona-se com Fahrenheit 451 ao partilhar o tema distópico e a destruição de documentos, distorcendo a realidade. Assim, recomenda-se esta leitura a quem queira uma obra verdadeiramente impactante.

Filipe Flamino, 12.ºT5